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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Matilde e a bicicleta nova




“Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo…” repetia sem parar as indicações que lhe tinham sido dadas. Era a primeira vez que tentava a sua sorte e, para começo de conversa, não se estava a sair nada mal.
O seu novo brinquedo era cor-de-rosa. Mas não era um cor-de-rosa qualquer pois o seu pedido tinha sido bem especifico, “Quero aquele cor-de-rosa do vestido da Barbie Sereia”, era aliás o seu brinquedo preferido e de referência para tudo o resto: tão bonito quanto a Barbie Sereia, tão diferente quanto a Barbie Sereia, cabelos tão bonitos quanto os da Barbie Sereia… Este era, agora, o seu termo de referência.
Não foi fácil mas o pai lá conseguiu falar com o Sr. António da loja de bicicletas e, por especial favor, arranjou um exemplar “todo quitado”.
A mãe estava encantada com o cestinho à frente:
- Já viste Matilde, podes por aqui os teus bonecos e levá-los a passear… Ou podes pôr aqui o lanche quando fores andar de bicicleta para o jardim… Ou podes…
- Ou posso tentar aprender a andar de bicicleta… Oh mãe, eu não consigo… É muito difícil!
A última bicicleta que teve, era daquelas com rodinhas mas ela achava que já estava muito crescida para usar esse apoio… Mas, agora, faltava-lhe essa segurança e tinha receio de cair, de se magoar ou, pior, desiludir o pai que estava tão entusiasmado com a prenda que lhe tinha dado.
De capacete na mão o pai chegou ao pé da Matilde e disse-lhe:
- Lindona, vamos para o jardim estrear a bicicleta nova?
- Oh pai… se calhar ainda estou a fazer a digestão e pode fazer-me mal.
- Não faz nada mal… Vem, vamos dar uma volta….
- Oh pai, sabes, doi-me aqui este dedo (espetando o dedo imaculado mesmo em frente ao nariz do pai para que não restassem dúvidas).
- Matilde… Tu estás com medo?, perguntou o pai sentando-se na beira da cama.
De cabeça baixa a pequena Matilde apenas acenou afirmativamente com a cabeça.
- Mas porquê filhota? O pai está lá contigo… Eu prometo não largar a bicicleta enquanto não te sentires segura. Mas, sabes, se não tentares nunca vais conseguir andar. E ainda há outra coisa: cair faz parte da aprendizagem. E, se por acaso caires, o pai promete arranjar uns pensos cor-de-rosa para condizer com a bicicleta e a Barbie Sereia… Que achas?
Mais convencida, Matilde levantou-se repentinamente e pegou na mão do pai em direcção à porta. A possibilidade de ter um penso cor de rosa, onde quer que fosse, valia bem o esforço...
Pelo caminho o pai deu as instruções necessárias para que tudo corresse bem:
- O capacete não é para sair da cabeça. Usa o travão com cuidado porque se travares de repente podes cair. Só podemos andar aqui no passeio. E mais importante: Não pares de pedalar. Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo…
- Pé direito, pé esquerdo… Oh pai, eu confundo sempre qual é o esquerdo e qual é o direito.
O pai não conteve o riso e disse-lhe que o que interessava era que alternasse os pés a pedalar e o assunto ficou esclarecido.
- Pai, disse Matilde, mas tu não me largas, pois não? Tu prometeste.
- Matilde, o pai vai estar sempre ao pé de ti. Eu prometo. Vá, agora… FORÇA! Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo…
- … Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo… - ia repetindo em voz alta.
Veloz e passo certo, Matilde, estava a andar de bicicleta. Contente com o seu feito e de sorriso rasgado olhou pelo canto do olho e percebeu que o pai tinha ficado para trás… Já há algum tempo… Matilde aprendera a andar de bicicleta e sem a ajuda das rodinhas. 


**Nota da Autora: Às vezes as palavras dos pais são as nossas melhores rodinhas...

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O bezigório Zibum


As férias chegaram e, mais uma vez, a Matilde tinha pensado em imensas coisas que gostava de fazer durante esse tempo livre (que lhe parecia uma eternidade): tinha pensado em ir à Lua, ou viajar no tempo como tinha visto uma vez num filme; tinha pensado em fazer um safari em África e talvez descobrir uma nova espécie de animal (um cruzamento entre uma zebra e um hipopótamo era capaz de ser engraçado!) – até já tinha um nome para ele e tudo: Zipótamo. Pensou ainda ir acampar com as fadas que costumavam guardar o seu sono todos os dias. Pensava que seria muito giro ir com elas tomar conta do sono de outros meninos e, se elas deixassem, até podia ser que pudesse espreitar os sonhos de alguns… Tanta coisa que a Matilde tinha na cabeça que, para ela, o maior problema era decidir-se por onde começar.
Ao acordar, no primeiríssimo dia de férias, resolveu perguntar à mãe se podia ir passar uns dias a casa dos avós. Ela sabia que lá iria conseguir cumprir “quase todos” os seus desejos. Quase todos, pois não tinha a certeza de as fadas a acompanharem nessa viagem. “De certeza que eles também têm fadas que lhes guardam o sono… Assim, até faço novas amigas e tudo!”, pensou baixinho não fosse a mãe perceber os seus planos.
Uns telefonemas depois e lá estava ela de malas aviadas para uma semana repleta de aventuras com os seus fiéis companheiros de galhofa: o avô e a avó.
***
A Matilde era, desde que nasceu, uma aventureira. “Nisso ela não sai a mim”, dizia o pai, de cada vez que falava sobre o assunto com os amigos ou familiares. A mãe fazia um sorriso maroto. Também ela tinha o seu Mundo Encantado povoado de sonhos e figuras engraçadas quando era mais pequena.
- Ó mãe, tu também “vês” o que eu vejo, não vês?
- Vejo o quê, Matilde?, respondia a mãe atrapalhada.
- As fadas… Os zipótamos… os…
- Os zi… quê? Do que é que estás a falar?
- Ohh tu estás a disfarçar. Eu bem sei que tu vês, ou já viste, o que eu vejo por isso…
E lá ia ela, com o seu nariz empinado, brincar de faz de conta mais um bocadinho.
***
Estas férias eram diferentes. A Matilde ia para a escola no ano a seguir. Sentia-se importante pois ia para a “escola dos grandes” mas muito ansiosa sobre o que esta nova etapa lhe reservava.
Mal chegou a casa dos avós foi logo sentar-se no sofá à espera que a avó lhe perguntasse por novidades ou o que queria fazer. E assim foi:
- Então, que te apetece fazer hoje?
- Avó, temos que falar, disse com ar preocupado. Eu acho que a mãe já não VÊ aquilo que nós as duas VEMOS.
- Estás a falar do quê Matilde?, perguntou a avó pensando que a mãe teria algum problema que não lhe tivesse contado.
- Temos que arranjar maneira de ela VOLTAR A VER, continuou apoiando o queixo na mão. TEM QUE SER AVÓ!!! É MUITO IMPORTANTE!!!
Enquanto levantava a avó do sofá e a empurrava em direção ao jardim para lhe mostrar aquilo que estava a falar, Matilde não se calava:
- ISTO. É disto que estou a falar: as fadas, os zipótamos, os habitantes da Lua, os… Tudo, avó! Ela já não OS vê… - disse sentando-se, desolada, na soleira da porta.
Com ar enternecido, a avó sentou-se na cadeira de baloiço e puxou-a para o seu colo.
- Sabes, meu amor, eu tenho a certeza que ela os vê. A todos. Só que quando as pessoas crescem nem sempre podem ir para “esses lugares” ou falar com todos “esses amigos” que tu tens. Quando crescemos, há outras coisas em que temos que pensar, outras coisas que temos que fazer e quase nunca temos tempo para sonhar.
- Mas avó… tu e o avô… vocês…
- Nós somos avós. E os avós vêm tudo. Tal como te mostrei esse Mundo a ti, também o mostrei à tua mãe. Também viajámos muito e tivemos aventuras E-S-P-E-C-T-A-C-U-L-A-R-E-S!
Nessa altura o avô, que estava a ler o jornal, pousou-o em cima da mesa e fazendo sinal para que ela se aproximasse disse-lhe assim:
- Lembro-me que uma vez encontramos, aqui mesmo neste jardim, um bezigório. Sabes o que é?
Matilde disse que não com a cabeça e abriu os olhos como que pedindo que o avô não a deixasse muito tempo na ignorância. O avô, que era muito malandro, piscou o olho à avó e continuou:
- Um bezigório, Matilde, é uma espécie de duende. Lembro-me perfeitamente como se fosse hoje, disse recostando-se na cadeira. Ele estava ali debaixo daquela árvore, disse apontando para uma árvore gigantesca que estava há anos no quintal por detrás da casa. Eu acho que ele se mudou há uns tempos. Disse que ia procurar novas aventuras e partiu. Nunca mais o vi…
O sorriso e a ruga na testa eram denunciadores de que estava a divertir-se ao inventar a história. Mas, Matilde nem reparou e perguntou:
- Mas, o que aconteceu nesse dia?
- Então, a tua mãe viu o bezidróglio…
- Bezigório avô, bezigório – corrigiu a Matilde
- Pois, isso. O bezigório estava nos seus afazeres como todos os dias: limpar a casa, tratar da horta… Quando a tua mãe reparou nele. Ela devia ter mais ou menos a tua idade e era também tão curiosa como tu. Pôs-se de cócoras e espreitou por entre as janelas brancas pequeninas da casa do Zibum (era o nome dele). “Pum catrapum, porque espreitas para a casa do Zibum?”, disse ele muito zangado. A tua mãe ficou muito aflita e apressou-se a pedir desculpa dizendo que estava apenas com curiosidade de saber quem vivia naquela casa tão pequenina que mais parecia uma casa de bonecas. “A casa é pequenina mas não é para ti menina!”
- Ele falava sempre a rimar avô?, Perguntou a Matilde divertida.
- Claro. Os bezinózios…
- Os bezigórios, avô. Estás sempre a “desquecer-te” do nome…
- Pois, os bezigórios, têm essa particularidade: falam a rimar e estão sempre a dançar… Bom, mas depois de ele ter explicado que era uma grande falta de educação e depois da tua mãe pedir desculpa, eles lá fizeram as pazes e até ficaram amigos. Todos os dias daquelas férias ela acordava bem cedinho para o ajudar a tratar da horta e ficavam horas a falar. Um dia, ela até levou uma mobília de uns bonecos para que ele pudesse colocar na sua casinha de brincar. Falavam e falavam. Tomavam chá e comiam scones todas as tardes. Era uma maluqueira.
- Imagino – Disse ela com ar pensativo
- Um dia, ele deu-lhe um presente. Era uma pedrinha. “Quando estiveres com medo, ou quando precisares de ajuda para alguma coisa, pegas na pedrinha e dizes: Pum Catrapum ajuda-me Zibum. E eu, apareço!”. Bem, não sei se funcionava a sério ou não mas durante muito tempo eu vi a tua mãe com essa pedra no bolso. Quando tinha que fazer os trabalhos de casa punha sempre a pedra em cima da mesa, quando tinha que tomar decisões levava a mão ao bolso, no dia em que conheceu o teu pai tinha essa pedra com ela e quando soube que tu ias nascer …
- O que foi avô? O que foi que ela fez?
- Ela jogou a mão ao bolso e não encontrou a pedra. Procurou, procurou mas a única coisa que acabou por encontrar foi um bilhete do Zibum.
- O que dizia o bilhete? Diz-me… DIZ-ME avô.
- Calma. O bilhete dizia: “A sorte não está na pedra, por isso deixei-a ir, a maior prenda nasce agora, e ela te fará sorrir”. A partir desse dia a tua mãe não falou mais no bezigório, não procurou mais a pedra, nem sequer falava sozinha. Ela descobriu que o maior presente, o maior tesouro, estava bem à sua frente. Por isso minha querida Matilde, a tua mãe não deixou de OS ver… A tua mãe agora não precisa de OS ver porque tu OS vês por ela e é através de ti que ela sonha… Tu és… Tu és…
- Eu sou o bezigório dela… - disse a Matilde sorrindo.
- É isso… É isso mesmo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A casa da Matilde

Matilde tinha uma casa de bonecas só dela. "É o meu sitio preferido", como gostava de dizer.
A casa tinha 3 janelas e uma porta e era do tamanho exacto para ela e os seus bonecos.
A mãe gostava muito de a espreitar, sem que ela se apercebesse, e ficava deliciada a vê-la falar com os peluches, as Nancys e as Barbies, com um tom muito adulto, quase como se a quisesse imitar!...
A casa da Matilde era muito especial: apesar de ser de cartão ela imaginava que estava num palacete feito das mais diversas gulodices (já vos tinha dito que ela era muiiiiiiito gulosa?!). As janelas eram feitas de quadrados de gelatina das mais variadas cores. A porta era uma gigante bolacha de chocolate com uma pequena ranhura por onde espreitava para ver quem se aproximava dos seus domínios. No interior as paredes estavam cobertas de marshmalows que lhe davam a sensação de estar sempre nas nuvens. Sempre que se entrava no quarto da Matilde havia sempre um cheiro fantástico a baunilha.
As tardes eram passadas na brincadeira mas chegando à noite o que a Matilde mais gostava era de imaginar o que estariam os seus amigos a fazer enquanto ela observava a casa da sua cama. Às vezes ela jurava que os ouvia a rir a noite toda. E ela, ria também a imaginar os disparates que estariam a fazer.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Matilde e as estrelas

- Mãe, como nascem as estrelas?
Matilde sempre fora uma menina muito curiosa e sedenta de saber. Tudo o que via à sua volta era motivo suficiente para longas horas de conversa. Embora pequenina já tinha opinião sobre muita coisa e gostava de defender as suas ideias até à exaustão. Mas, o mais curioso, é que quando não sabia alguma coisa não inventava e não hesitava em perguntar ao adulto mais próximo o "quando", o "onde" e o "porquê". Neste dia tinha calhado à mãe.
Por entre tachos e panelas e a preparação do jantar, a mãe conseguiu tirar um tempinho para tentar explicar como nasciam as estrelas (assunto que, obviamente, não dominava).
- Ó mãe, as estrelas também choram quando nascem? E saem da barriga da mãe? Usam fraldas? E chucha? Como é chucha delas?
- Calma, calma Matilde. As estrelas não são como nós. Não nascem como nós. Não crescem como nós e, sabes uma coisa ainda mais engraçada? É que as estrelas que estás a ver agora no céu já são velhiiiiinhas... Já nasceram hà muito tempo.
- Como a avó??? Disse a Matilde com a sobrancelha levantada e olhar duvidoso na direcção da mãe.
- Sim. Senta-te aqui.
A pequena menina pegou no seu banquinho que usava para ajudar a mãe na cozinha e sentou-se muito quieta a ouvir o que a mãe tinha para lhe contar:
- Sabes Matilde, a Terra é um pequeno planeta no meio do Universo. Estás a perceber?
Matilde acenou com a cabeça dando aprovação que a mãe continuasse a contar a história que havia começado.
- Entre os diferentes planetas existe muito espaço livre e é nesse espaço que existem muitos gases e poeiras que se vão atraindo ficando cada vez mais próximos até serem uma massa só. Só que a energia entre eles é tal que fica tão quente, mas tão quente, que "explode". - A mãe da Matilde falava muito com as mãos e gesticulava muito, de maneira que, quando simula a explosão a Matilde dá um salto do banco quase caindo ao chão.
- Ó mãe, que susto!!! Olha, então o pai e a mãe das estrelas são essas coisas com nomes esquisitos que disseste?
- Sim, é mais ou menos isso... - Disse a mãe conformada que a sua explicação, tão pouco cientifica, estava a cair em saco roto. O que a Matilde queria mesmo era saber as fofocas de como tudo acontecia.... Mas viu perfeitamente que dali nada sairia. De nariz arrebitado, como era seu costume, levantou-se e disse:
- Sabes mãe, estou com fome, é melhor acabares o jantar.... Eu vou fazer um desenho para o meu quarto está bem?
E pé ante pé foi ter com a avó que dormitava no sofá da sala embalada pelo som altissimo do televisor. A avó Clementina tinha-se sentado em cima do comando e nem tinha dado por isso... Tentando controlar o riso lá conseguiu que ela acordasse e se apercebesse do sucedido. Após umas boas gargalhadas em conjunto, a pequena Matilde ganhou coragem e perguntou à avó:
- Vó Tina, tu.... tu sabes como nascem as estrelas? É que eu acho que a mãe me está a esconder alguma coisa... Só me fala em gases e poeiras o que eu acho muito estranho... É que uma estrela, que é uma coisa tão bonita, não pode vir de coisas tão feias.... É impossível, avó!
Vendo o ar desconsolado da sua neta e sabendo do gosto que tinha em histórias mirabolantes a avó tomou fôlego e disse-lhe:
- As estrelas nascem, realmente, como a tua mãe te contou mas... isso é como nascem as estrelas "normais". Há, no entanto, outras estrelas muito mais brilhantes que têm uma origem bem mais poderosa. São estrelas que nascem de um grande amor. São as estrelas que são o resultado de dois seres que se atraem e que se juntam para fazer algo maior que eles próprios, resistente a tudo e a todos e que brilhará mais quanto maior for o seu amor. A essas estrelas dá-se o nome de filhos, dá-se o nome de sobrinhos e dá-se o doce nome de netos. Tu és a minha estrela, pequena Matilde e eu vi-te nascer... Desde esse dia que a minha vida ficou tão mais luminosa, meu amor...
Com os olhos húmidos e cheios de ternura, Matilde agarrou-se ao pescoço da avó e disse:
- Avó, para mim, tu és a estrela mais cintilante de todo o Universo!